OS DIAS MINGUAM, AS HORAS REPETEM-SE A UMA VELOCIDADE SEM FREIO!

sábado, 9 de julho de 2016

BICENTENÁRIO DA INDEPENDÊNCIA DA ARGENTINA!

Mensagem do Papa no Bicentenário de Independência da Argentina
8 de Julho de 2016 / 0 Comentários

Cidade do Vaticano (Sexta-feira, 08/07/2016, Gaudium Press)
- Tendo em vista as comemorações do Bicentenário de Independência da Argentina que será celebrado neste sábado, 9 de julho, o Papa Francisco enviou hoje uma carta ao Presidente da Conferência Episcopal Argentina, Dom José Maria Arancedo.


A missiva serviu para o Pontífice cumprimentar os bispos, autoridades civis e todo povo argentino:

"Desejo que esta celebração nos torne mais fortes no caminho empreendido por nossos antepassados duzentos anos atrás. Com estes votos, manifesto a todos os argentinos a minha proximidade e a certeza das minhas orações".

O Santo Padre sublinha que deseja estar próximo aos que mais sofrem:
"os doentes, os que vivem na indigência, os encarcerados, os que se sentem sozinhos, os desempregados e os que passam por todo tipo de necessidade, os que são e foram vítimas do tráfico de pessoas e da exploração, os menores vítimas de abuso e dos muitos jovens que sofrem por causa do flagelo da droga. Todas essas pessoas suportam o grave peso de situações, muitas vezes no limite. São os filhos mais provados da Pátria".

"Celebramos duzentos anos de caminho de uma Pátria que, em seus desejos de fraternidade, se projeta além dos limites do país: Que o Senhor a proteja, a torne mais forte, mais fraterna e a defenda de todo tipo de colonização", disse Francisco.

O Pontífice continua em sua mensagem:
"Baseando nestes duzentos anos, devemos continuar caminhando, olhando adiante. Para conseguir isso, penso de modo particular nos idosos e jovens, e sinto a necessidade de pedir-lhes ajuda para continuar a percorrer o nosso caminho. Aos idosos, que têm uma boa memória da história, peço para que, superando esta "cultura do desperdício" que no âmbito mundial nos é imposto, tenham a coragem de sonhar. Precisamos de seus sonhos, fonte de inspiração. Aos jovens peço para não aposentarem a sua existência na burocrática imobilidade em que são colocadas de lado muitas propostas, carentes de ilusões e heroísmo."

Antes de concluir, e pedir a Deus para que abençoe a Argentina e à Virgem de Luján para que proteja o seu caminho, o Papa disse:

"Estou convencido de que a nossa Pátria precisa tornar viva a profecia de Joel. Somente se os nossos avós tiverem a coragem de sonhar e os nossos jovens de profetizar grandes coisas, a Pátria poderá ser livre. Precisamos de avós sonhadores que incentivem e de jovens que, inspirados por estes sonhos, corram adiante com a criatividade da profecia."

Fonte: www.gaudiumpress.org" >Autoriza-se a sua publicação desde que se cite a fonte.

sexta-feira, 8 de julho de 2016

UM OUTRO NA NOSSA VIDA NA PLANITUDE DO AMOR!

Preciso de ti

 
Sentir a falta é descobrir não um vazio mas uma abertura e uma potencialidade altíssima, a de acolher o outro dentro de si próprio e só assim sentir-se preenchido, feliz, realizado. Esta mesma consideração vale para todo o verdadeiro amor, incluído o místico, que é descoberta da falta de um Outro que seja para ti fonte de plenitude.
«Queres saber quem és para mim. Eis, então: tu és aquela que me impede de me bastar. Tu deste-me a coisa mais preciosa de todas: a falta!»
Christian Bobin é um escritor francês de 65 anos, marcado por uma forte espiritualidade e com obra traduzida em Portugal, embora muito reduzida.
As palavras que hoje citamos constituem provavelmente a substância mais íntima do amor: não é por acaso que são ditas a Ghislaine, a mulher amada.
A autenticidade do amor, o seu grande dom humano e espiritual é precisamente este: fazer-te compreender que precisas do outro, que não te bastas a ti próprio, que a auto  suficiência e o orgulho são ilusões e que o egoísmo é pobreza.
Sentir a falta é descobrir não um vazio mas uma abertura e uma potencialidade altíssima, a de acolher o outro dentro de si próprio e só assim sentir-se preenchido, feliz, realizado.
Esta mesma consideração vale para todo o verdadeiro amor, incluído o místico, que é descoberta da falta de um Outro que seja para ti fonte de plenitude.
Por isso é perigoso o momento em que não se sente falta de ninguém, no convencimento de bastar-se a si mesmo. Esta é a condição da morte do espírito.
Resultado de imagem para preciso de ti
Para quem ama, pelo contrário, a existência torna-se como Bobin a descrevia no romance “Geai”: «A vida é um presente que abro a cada manhã, quando desperto. A vida é um tesouro de que descubro a parte mais bela a cada noite antes de fechar os olhos».
 P. (Card.) Gianfranco Ravasi 
In "Avvenire" 
Trad.: Rui Jorge Martins 
Fonte: Pastoral da Cultura-Publicado em 7.7.2016

quinta-feira, 7 de julho de 2016

O PLANO DOS ANOS 50 PARA A EUROPA UNIDA!?

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Brexit: O Conde de “X” e o plano da Europa Unida soprado nos anos 50

"Minha Vida Pública": uma prodigiosa fonte de informação exclusiva  para compreender a história da RCR no Brasil e no mundo.  828 páginas inéditas disponível na Livraria Petrus
"Minha Vida Pública": uma prodigiosa fonte de informação exclusiva
para compreender a história da RCR no Brasil e no mundo.
828 páginas inéditas disponível na Livraria Petrus
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs



A imensa produção intelectual do prof. Plinio Corrêa de Oliveira inclui vasta coletânea de memórias pessoais transmitidas oralmente durante sua longa vida.

O Dr. Plinio não teve tempo de sistematizar essas Memórias. Por isso saudamos como muito oportuna a recente publicação de uma extraordinária coleção de anotações e escritos do Dr. Plinio reunida no volume “Minha Vida Pública – Compilação de relatos autobiográficos de Plinio Corrêa de Oliveira” (Artpress, São Paulo, 2015, 827 páginas).

O valor da riquíssima publicação pode se apreciar no seguinte apanhado de memórias de Dr. Plinio sobre a preparação da União Europeia como ele pode observar em suas viagens à Europa na década de 50, em pleno século passado.

No momento do “Brexit” o tema é candente. Os fatos narrados pelo Dr. Plinio mostram aspectos da incubação da União Europeia sorrateiramente preparada em ambientes eclesiásticos e civis.

Confira o leitor:


Na sala de espera de Monsenhor Roger Beaussart [N.R.: bispo auxiliar demissionário de Paris, ano 1950] conheci um Conde de “X” (28/7/73, as datas entre parênteses indicam o dia em que foram registradas as palavras de Dr. Plinio, os nomes são omitidos respeitando a privacidade). 

Este senhor era da nobreza francesa, de uma velha família de origem protestante, calvinista, mas que com o passar do tempo e as boas dragonadas de Luís XIV, tomou juízo e voltou para a verdadeira fé. 

Ele se apresentava a mim como católico praticante e como grande amigo de Monsenhor Beaussart. Teria naquele tempo perto de 75 anos e eu 42 anos. 

Feitas as apresentações, ele manifestou o desejo de me conhecer mais de perto e convidou-me para almoçar no Automóvel Clube de Paris, ambiente muito fino, mas servindo um almoço plutôt medíocre. Ele, um homem muito agradável de trato. 

Como de costume, quando dois homens se encontram por razões de negócio, ou por razões de doutrina, de ideologia ou política, depois de se sentarem, observam um pouco o ambiente, encomendam o menu e os vinhos, e a conversa insensivelmente passa para os assuntos sérios. 

Ele me fez elogios de Pio XII (eu ouvira de Monsenhor Beaussart comentários bem diferentes). E quis contar-me coisas da França e da Europa. 

Fez também muitos elogios genéricos do Arquiduque Otto de Habsburgo: “Homem muito inteligente, capaz”. Só faltou dizer-me que Otto era de muito boa família ... 

A conversa não parecia conduzir a grande coisa, quando de repente ele me disse (14/6/80): 

— Bom, Professor, o senhor com certeza, como líder católico, quer ganhar o seu tempo. 

Eu concordei enfaticamente. 

— E quer saber o que vai se passar. 

Vinha como numa bandeja. Então respondi: 

— Sim, claro. 

Ele então me fez uma descrição do que seria a política de aproximação entre as esquerdas e as direitas nos próximos decênios, a qual ele descrevia entusiasticamente, apresentando-a como uma coisa muito boa que deveria se dar.

Foi uma exposição fluente, que durou mais ou menos uns quarenta e cinco minutos, em que ele pôs todas as cartas sobre a mesa. (28/7/73)

— Sabe, professor, a Europa está mudando de um modo como ninguém imagina. Em vez de caminhar para uma dilaceração entre as correntes que a dividem, ela, pelo contrário, caminha para uma síntese. 

Está sendo preparada uma Europa Unida, cujo centro será provavelmente Estrasburgo, a cidade carolíngia. 

Plinio Corrêa de Oliveira no aeroporto de Barajas, Madri, década de 50.
Plinio Corrêa de Oliveira no aeroporto de Barajas,
Madri, década de 50.
E continuou: 

— Está também em gestação um Parlamento da Europa; e, depois do Parlamento, está preparado um governo da Europa. 

Esse Parlamento e esse governo farão desaparecer completamente as diversidades nacionais. 

Vão ser eliminadas as fronteiras alfandegárias, de maneira que de um país para outro se poderá fazer exportação de mercadorias inteiramente à vontade, sem impostos, sem alfândegas nem taxas. 

A Europa terá, portanto, um só mercado consumidor, uma só indústria e um só comércio geral. 

Ainda dentro dessa confidência, ele acrescentou: 

— No interior dos países entrarão em composição todas as correntes, desde o partido comunista até os monarquistas, desde as mais moderadas até as mais radicais e intransigentes (14/6/80). As esquerdas e as direitas vão convergir (28/7/73). 

E neste Parlamento da Europa Unida haverá representantes de todas as classes sociais, representantes dos industriais, representantes dos sindicatos operários, especialistas e sumidades que exprimirão todos os valores da Europa. (14/6/80). 

E afirmou uma coisa surpreendente: 

— Os próprios príncipes das casas reais vão colaborar para isso. No Conselho da Europa, eles vão representar a tradição. Outros representarão o dinheiro, e outros ainda representarão a cultura e assim por diante. E esse Conselho vai levar a Europa à completa ligação com a Rússia. (14/6/80). 

E concluiu assim: 

— Vai assim se abrir uma nova possibilidade para os componentes das casas imperiais e reais, hoje destituídas. Eles não se tornarão monarcas, pois essa época histórica cessou. Mas ficarão como representantes da tradição, enquanto um dos valores da Europa.

As casas reais e a antiga Nobreza vão também elas mandar seus deputados para o parlamento de Estrasburgo. E o senhor verá sentado, lado a lado, na mesma bancada, o Arquiduque Oito de Habsburgo e o presidente de um sindicato.

E a Europa inteira, desde a sua mais antiga tradição quase carolíngia, até sua expressão mais moderna de extrema esquerda, toda reconciliada, caminhará no mesmo rumo. 

Ouvi tudo aquilo sem fazer o menor comentário. Ouvi com um de surpresa que velava o meu espanto e a minha completa falta de admiração por esse plano. (14/6/80)

Plinio Corrêa de Oliveira partindo para Pais. A seu lado Fábio Vidigal Xavier da Silveira (R.I.P.)
Plinio Corrêa de Oliveira partindo para Pais.
A seu lado Fábio Vidigal Xavier da Silveira (R.I.P.)
Na hora da partida, eu agradeci o almoço, dizendo que tinha sido muito interessante, muito instrutivo, mas sem dizer uma palavra que significasse aprovação àquele plano. 

Cumprimentamo-nos e ele saiu-se com esta: 

— Bom, Professor, eu sei que o senhor está de partida para Roma e seria necessário que conhecesse essas coisas antes de abordar um centro internacional tão importante quanto a Cidade Eterna. Aqui está meu cartão de visita. Procure-me na volta, porque então será a outra parte de sua viagem (28/7/73). 

E inclinando-se para o meu ouvido disse baixinho: 

— Vou então acompanhá-lo até as melhores casas de perdição, e aí o senhor poderá conhecer as verdadeiras ‘filles de Paris'. 

Isto foi dito na hora de apertar a mão para a despedida. 

Soltei a mão dele, disse um “até logo” seco (14/6/80) e amarrei a cara. E ele percebeu que eu havia fechado a cortina (28/7/73). Ele foi para uma direção e eu fui para outra e nunca mais nos vimos. 

Esse homem sabia perfeitamente que eu era um católico praticante, de comunhão diária. Sabia de meu passado católico, de minha condição de escritor e jornalista católico. Como podia ele imaginar que pudesse me agradar um oferecimento infame daqueles? 

Diante de coisas dessas, e depois de alguns desapontamentos que eu tivera na Espanha, fiquei com a sensação desagradável de estar diante de uma parede que eu esperava ser de um probo granito resistente, e que de repente se transforma em uma parede de papelão, da qual saíam vermes e podridão. 

Quem era essa gente? (14/6/80)


Fonte: Flagelo russo-(Fonte: Plinio Corrêa de Oliveira, “Minha vida pública”, Artpress, São Paulo, 2015, 827 páginas. Parte VII, capítulo IV, Francia, nº6, p. 393‒395)

quarta-feira, 6 de julho de 2016

QUANTAS IDOLATRIAS E QUANTOS ALIBIS!?

Deus, as idolatrias e os pobres: Sem alibis

 

Para Isaías, a procura da justiça, e portanto a condição dos pobres, é antes de tudo uma questão teológica, não assistencial. Ainda que as maneiras de amar os pobres sejam muitas, pelo menos tantas quantos os rostos da pobreza e dos pobres, há experiências religiosas que esquecem os pobres, ao ponto de deixarem de os ver, e chegam a pensar que desapareceram da cidade opulenta.
A primeira estratégia concretizada pelos poderosos para ignorar as razões do pobre foi, e continua a ser, pensar e dizer que ele é culpável, atribuir-lhe a culpa da sua pobreza. Isaías condena o povo e a sua elite, mas não condena os pobres. Numa cultura onde o pobre era considerado culpado, os profetas (juntamente com Job) dizem exatamente o oposto: a dor dos pobres é a consequência dos golpes dos chefes, da idolatria e da falsa religião dos reis e sacerdotes. Os pobres são vítimas da injustiça de um povo infiel, mas não são culpáveis. Para compreender a força revolucionária da crítica cortante e radical de Isaías, devemos ter presente que o ambiente em que trabalhava e vivia Isaías era o templo de Jerusalém. Os sacerdotes, que celebravam os sacrifícios condenados pelo profeta, eram seus concidadãos muito próximos, pessoas com as quais estava em contacto todos os dias. Os sacrifícios continuavam enquanto Isaías os criticava, e os pobres continuavam sem socorro.
O destino do profeta está em dever anunciar o disparate das ofertas de touros e cordeiros, enquanto que o seu sangue cai sob os seus pés. Se a dor pelo próprio insucesso ou as preocupações de ofender os seus ouvintes tivessem travado a palavra de Isaías e dos outros profetas, hoje não teríamos palavras grandes para continuar a dizer a inutilidade de alguns dos nossos “sacrifícios” e para denunciar as idolatrias das religiões e dos ateísmos do nosso tempo. Os profetas amam-nos por que, por vocação, não concedem nada às nossas autoilusões consoladoras. Os ídolos são aduladores e buscadores de aduladores, os profetas nunca.
É grande a riqueza antropológica e teológica que se esconde atrás da crítica radical aos sacrifícios que abre o livro de Isaías. As ofertas ao templo e os seus comércios são um caminho sem saída, porque o caminho justo é outro, o da justiça e, portanto, da ação a favor dos pobres: «Procurai a justiça, socorrei o oprimido, fazei justiça aos órfãos, defendei a causa da viúva» (1, 16-17). Agir em favor dos oprimidos, órfãos, viúvas, estrangeiros é a única possibilidade para uma autêntica vida religiosa. A condição do pobre dentro das nossas comunidades de fé é o primeiro critério para a justiça e é também o primeiro critério para a vida religiosa: «Como se tornou numa prostituta a cidade fiel! (…) Andam todos à procura de regalias e de recompensas. Não defendem o direito dos órfãos nem se interessam pela questão das viúvas» (1, 21-23).
Para Isaías, a procura da justiça, e portanto a condição dos pobres, é antes de tudo uma questão teológica, não assistencial. Ainda que as maneiras de amar os pobres sejam muitas, pelo menos tantas quantos os rostos da pobreza e dos pobres, há experiências religiosas que esquecem os pobres, ao ponto de deixarem de os ver, e chegam a pensar que desapareceram da cidade opulenta. E essas experiências religiosas são, de facto, idolatria. Quando encontramos verdadeiramente a voz do Deus bíblico, somos chamados a deixar a nossa terra em direção a outros lugares, a sair do nosso “já” para um “não ainda”, a abandonar as nossas seguranças para nos ocupar-nos de outro, de qualquer outro. Eis porque a solicitude pela pobreza é a condição necessária para a fé: é o primeiro “ainda não” em direção ao qual nos devemos deslocar, é o sinal de que não reduzimos Deus a um bem de consumo. Uma pessoa pode tornar-se idólatra inclusivamente junto dos pobres, mas não se segue o Deus bíblico sem os pobres.
Por este motivo, no discurso de Isaías encontramos primeiro o pecado contra o pobre, e só depois a condenação da idolatria: as religiões e comunidades espirituais sem pobres são já idolátricas. As pessoas e as comunidades que frequentam os templos, que rezam, cantam e louvam, mas que perderam o contacto com os pobres, não os abraçam, não os convidam para suas casas, que não fazem tudo para mudar as leis e melhorar as condições dos mais pobres, estão já dentro de um culto idolátrico, mesmo que não o saibam. (…)
Nos primeiros capítulos de Isaías, o discurso sobre os sacrifícios interseta-se mais vezes com o dos pobres e sobre os ídolos: «Tu, ó Deus, rejeitaste o teu povo, a casa de Jacob, porque está cheia de magos, de agoureiros como os filisteus (…). A sua terra está cheia de prata e de ouro, e os seus tesouros não têm fim. A sua terra está cheia de cavalos, e são inumeráveis os seus carros. É uma terra cheia de ídolos; prostram-se diante da obra de suas mãos, que os seus dedos fabricaram» (2, 6-8).
Idolatria, magos, adivinhos, procura da riqueza e abandono dos pobres são faces do mesmo prisma pseudo-religioso. Ontem e hoje são muitos os crentes que esquecem os pobres e enchem os templos, e talvez à saída leiam o horóscopo no jornal ou compram uma “raspadinha”. Isaías diz-nos simplesmente, e sem compromissos, que estas práticas religiosas são cultos idolátricos. Adorar artefactos, celebrar ritos à fertilidade, procurar ouro, não cuidar dos pobres são a mesma coisa, são expressões diferentes da mesma prostituição religiosa e social. A idolatria não é externa à religião, é a sua principal doença autoimunitária, que ela própria gera quando perde contacto com a profecia.
Isaías acrescenta dois elementos à crítica bíblica à idolatria, elementos fundamentais para toda a fé e toda a idolatria: o ídolo insinua-se também dentro dos templos da religião (com sacrifícios) e afasta-nos dos pobres. As religiões estiveram sempre cheias de idolatria, sobretudo nos tempos de crise religiosa, quando diante das dificuldades de compreender e redizer as antigas palavras da fé bíblica, em vez de reler os profetas se procuram oráculos e adivinhos, dentro e fora dos templos, que prometem salvações mais simples. Mas, ontem e hoje, as idolatrias são sempre as mesmas: abundância de cultos e distância do grito do pobre, fuga em busca de emoções e consolações baratas. As idolatrias são experiências de consumo, porque se constrói o artefacto com a esperança de que satisfaça as nossas necessidades. Os ídolos são muitos e populares porque são respostas pontuais aos gostos dos consumidores.
O primeiro dom que a Bíblia, e nela sobretudo os profetas, nos fez ao longo dos milénios é a proteção da produção idolátrica, que foi e continua a ser a experiência “religiosa” mais comum debaixo do Sol. É muito raro que quando pronunciamos a palavra “Deus” a nossa voz não alcance mais de que o eco de si própria, devolvida pelos nossos artefactos. A Bíblia é um mapa que nos guia para regiões espirituais e humanas onde é possível (ainda que nunca seja certo) que a nossa voz orante e o nosso grito sejam recolhidos por Alguém diferente de nós próprios, diferentes dos nossos artefactos, ou dos nossos amigos.
A Bíblia, e os profetas sabem muito bem, porque o aprenderam na dor da fidelidade à verdade da Palavra, que os homens são construtores naturais de ídolos, que em boa-fé chamam também Jesus, Alá. Sabem-no muito bem e por isso continuam a dizê-lo de muitas maneiras, mesmo sabendo que não nos é agradável ouvi-lo, que nem sequer conseguimos compreendê-lo, habituados que estamos aos nossos ritos idolátricos consoladores. Ajudam-nos não porque nos dizem quem é e como é feito o verdadeiro Deus (a Bíblia é também um grande silêncio e uma grande ausência de Deus), mas dizendo-nos sobretudo quem e que coisa Deus não é. Ensinando-nos a individuar os ídolos à nossa volta e dentro de nós. A Bíblia é um grande exercício de anti-idolatria porque o deus bíblico não fez do homem o seu ídolo.
O homem foi criado à «imagem de Elohim”, mas não se tornou o ídolo de Deus, Feito à mão, mas não ídolo. E podia tornar-se, dada a sua beleza, feita de pouco inferior a Deus (cf. Salmo 8). (…) Uma escolha paga com preço muito elevado, porque para não se tornar o ídolo de Deus, a Adão foi dada a liberdade de evoluir, de mudar, de pecar, e até de o negar e renegar, ou de o transformar num vitelo de ouro, de o pregar numa cruz.                                             
Um preço altíssimo, e um valor infinito. Quando é que disso nos daremos verdadeiramente conta?
A imensa dignidade do ser humano faz com que as insídias mais profundas da fé se aninhem precisamente no coração das religiões, não fora delas. Nunca começaremos a verdadeira vida espiritual se um dia, abençoado dia, não nos dermos conta de que passámos a vida falando connosco próprios ou com um ídolo, mesmo se estávamos convencidos de falar com Deus. Nesse dia pode começar uma vida nova, num grande silêncio e num grande vazio, onde se descobrem e se agradecem aos profetas, tornando-nos seus companheiros de viagem, e reaprende-se uma outra fé, talvez não idolátrica. Nós continuamos a produzir ídolos e continuamos a chamar-lhes Deus. E os profetas continuam a repeti-lo. É assim que nos amam.
 Luigini Bruni 
In "Avvenire" 
Trad. / edição: Rui Jorge Martins 
Fonte: Pastoral da Cultura-Publicado em 5.7.2016

QUEM SEGUE A CRISTO NÃO CAI PERANTE AS INSÍDIAS DO INIMIGO NA LUTA E DEFESA DOS IRMÃOS!


Leitura: "A lista do Padre Carreira"

«Eu não me deitei e andei a noite toda, furando Roma, mudando caminhos, acordando padeiros para trazer sacos de farinha, no dia seguinte, fazer papas com manteiga. E tive de tratar da distribuição, de descarregar os mantimentos, de encorajar as freiras e ouvir as mulheres que não sabiam dos maridos e de alguns filhos.» Leia um excerto do livro.
«Eu não me deitei e andei a noite toda, furando Roma, mudando caminhos, acordando padeiros para trazer sacos de farinha, no dia seguinte, fazer papas com manteiga. E tive de tratar da distribuição, de descarregar os mantimentos, de encorajar as freiras e ouvir as mulheres que não sabiam dos maridos e de alguns filhos.»
Este é um dos testemunhos diretos de Joaquim Carreira, padre português nascido em 1908 numa aldeia próxima de Fátima, que arriscou a vida para esconder e proteger centenas de judeus e dissidentes numa Roma ocupada pelos nazis. A sua base de ação foi o Pontifício Colégio Português, do qual se tornara reitor em 1941.
A história, de que apresentamos um excerto, é contada pelo jornalista António Marujo, de quem a editora Vogais lançou, recentemente, o livro "A lista do Padre Carreira - A história desconhecida do português que escondeu refugiados durante a Segunda Guerra Mundial".
Remontando a 2012, a investigação do autor, duas vezes vencedor do Prémio Europeu de Jornalismo Religioso na Imprensa Não-Confessional, revela ao grande público a coragem de um sacerdote que a 15 de abril de 2015 foi tornado "Justo entre as Nações" pelo Yad Vashem, o Memorial do Holocausto de Jerusalém.

«Necessidade extraordinária de fazer o bem»
António Marujo
In "A lista do Padre Carreira"
«De uma bondade extrema, sempre a sorrir»
Em 1945, logo após o final da guerra, o padre Carreira assume ainda, por um ano letivo, o lugar de professor de português na Universidade de Roma. Em 1950, recebe o título de monsenhor. Dois anos depois, ainda antes de deixar o Colégio, começa a desempenhar o cargo de conselheiro eclesiástico da Embaixada Portuguesa junto da Santa Sé. Em 1958, passa a residir na casa Madonna di Fatima, onde ficará até morrer, 23 anos depois, em dezembro de 1981. Sepultado inicialmente em Roma, seria trasladado para Portugal em 2001.
«Morava connosco e durante toda a semana animava o centro de culto», conta a irmã Maria Isilda, que ali conheceu o padre Carreira. «Esta era uma zona nova, havia muitas crianças que nós preparávamos para a primeira comunhão.» Na casa das irmãs, além de celebrar missa e acompanhar as pessoas, monsenhor Carreira «dedicava-se muito ao confessionário». Mas, «sobretudo, acolhia muito bem toda a gente» e as pessoas «procuravam-no para conversar e partilhar as suas dificuldades ou convidar para celebrações e festas de família».
A irmã Maria do Céu, que também conheceu Joaquim Carreira, diz que ele era «uma pessoa de uma bondade extrema, sempre a sorrir, sempre feliz, que encantava as pessoas com a sua maneira de ser». A irmã Isilda acrescenta que ele era «um “grande devoto de Nossa Senhora de Fátima». Hoje, a casa onde viveu o padre Carreira pertence a outra congregação religiosa e o sítio onde era o seu quarto é agora uma sala de um jardim de infância. E, na capela, é possível ver ainda o mosaico que representa a aparição de Fátima.
«Ele contava pouco» do que tinham sido os tempos no colégio, diz a irmã Isilda, que se lembra, apesar disso, de referências aos refugiados. «Falava do sítio onde as pessoas estavam escondidas e da alimentação. Dizia que enfrentou riscos para acolher as pessoas, mas sentia uma grande alegria por tê-lo feito.»

«O medo era o mais difícil»
Esses pormenores serão confirmados pelo próprio Joaquim Carreira, dois meses antes de morrer. Primeiro numa conversa pessoal, depois, numa carta que escreve a Maria da Conceição Primitivo, ele descreve alguns dos sentimentos que o atravessaram naquele tempo. Sabida a reserva que ele tinha em falar sobre o assunto, essas serão das poucas vezes que ele recordará os meses de ocupação nazi de Roma e do acolhimento que fez aos refugiados (descontado, claro está, o relatório do ano letivo 1943-44).
Da conversa que teve com monsenhor Carreira em final de setembro/início de outubro de 1981, Conceição Primitivo descreve: «Ele contou com emoção o que se passara começando a desfiar o mais difícil da história: a questão das senhoras e das crianças de várias idades. O número era muito superior ao dos homens. Conduziu um grupo, depois de dividido, para não dar nas vistas, à Igreja de Santo António dos Portugueses, fazendo-lhe companhia alguns padres do Colégio. Pensou então em dirigir-se a três casas de religiosas, onde sentiu haver espaço e acolhimento. Dava-se bem com essas comunidades e, quando chegou, foi direto ao assunto, que as deixou muito apreensivas.»
Maria da Conceição não se recorda se o padre Carreira lhe referiu quais eram as casas em questão. Mas diz que, apesar dos receios iniciais, as freiras cederam aos apelos de compaixão do reitor. E o próprio contava: «Logo nessa noite se recolheram nas três casas, sem mantimentos para tanta gente. Suei, perdi peso e cabelo. As mães com filhos ficavam juntas no mesmo lugar. Era uma sinfonia de crianças a chorar.»
Num segundo momento, Joaquim Carreira ainda regressa ao Colégio Português para levar, para as primeiras necessidades, leite em pó, bolachas e arroz. Nas casas das freiras, as novas hóspedes deitaram-se no chão como puderam. «Eu não me deitei e andei a noite toda, furando Roma, mudando caminhos, acordando padeiros para trazer sacos de farinha, no dia seguinte, fazer papas com manteiga. E tive de tratar da distribuição, de descarregar os mantimentos, de encorajar as freiras e ouvir as mulheres que não sabiam dos maridos e de alguns filhos.»
Ao mesmo tempo, o padre Carreira tinha de continuar a assegurar a vida do Colégio o mais normalmente possível. «Gastei-me mais em saliva a rezar do que em gasolina no carrossel», contava ele à confidente. «Já resmungava com Deus: Ai, Senhor, em que sarilhos me enfiaste. Tinhas disto na tua cruz? Ai que vida. Ai que cruz. Não tenho filhos, mas tenho só sarilhos.»
O episódio das buscas nazis no Colégio também não foi fácil, na versão que o próprio contava a Maria da Conceição em 1981: «O Joaquim agarradinho ao sacrário desde que eles entraram até que saíram», dizia ele, na terceira pessoa. «Comecei a ficar dominado pelo medo de que atacassem as casas das freiras. Não conseguia dormir e fazer vida de estrada em ziguezague, dentro e fora de Roma. Graças à intervenção constante de Nossa Senhora, as religiosas não foram atacadas.»
Surgiram outras preocupações: várias crianças refugiadas nas casas das religiosas adoeceram. Joaquim Carreira levou-as a médicos amigos. Depois, era ele que explicava às mães a medicação. «Tudo se salvou graças ao Deus forte.»
Conceição Primitivo tem certeza do número referido pelo padre Carreira na ocasião: «Qualquer das três casas ficou com mais de meia centena, espalhadas pelos sótãos. Mas a preocupação com elas, que eram muitas mais que os homens, moíam-me todo. Cheguei a ter de fazer furos no cinto, para não perder as calças. Mas dizia: não volto a ter outra aventura assim, mas esta não a perdi. Obrigado ao céu inteiro.»
A carta, datada de 22 de outubro de 1981, escrita já em Lisboa, dois dias antes de regressar a Roma, responde aos reparos de Maria da Conceição, de que Joaquim Carreira andaria a trabalhar muito. «O muito trabalho, na maior parte da minha vida, foi o tempo de arranjar celeiro para Deus e meus irmãos. Quando recordo os saltos que deu este coração e as voltas do meu miolo cerebral ao meter dentro da casa que a Providência me entregou (o Colégio Português) tantos refugiados judeus, inclino a cabeça cheia de respeito pelo dom da vida que me foi concedido guardar aquela pobre gente. Deus estava lá. E com a sorte de me abrir caminhos para arrumar e sustentar tanta gente. Se não fosse o caminho percorrido pelos arredores de Roma a fim de adquirir mais barato o alimento para os habitantes do Colégio, não sei o que seria. Conhecia moleiros, padeiros, leiteiros, agricultores e nessa altura tive de reforçar compras e fornecedores.»
A última confissão de Joaquim Carreira não deixa dúvidas sobre os sentimentos que ele tinha de vencer para poder fazer o que fazia: «Fui-me refugiar na Catacumba de S. Calisto e chorei naquela ansiedade. Chorei! Não sabia como atacar tanta urgência e arranjar paciência, caridade e mansidão contra a luta do inferno que estava a tentar-me contra a minha luta. Esse era o meu terror e o meu medo. Isso era o que mais me custava.» (...)

«Estou nas mãos de Deus»
A morte chegou na manhã de 7 de dezembro de 1981, provocada pelo coração que dedicara a tantos, ao longo da sua vida. Passara mês e meio desde que regressara a Roma e na véspera começara a escrever a Maria da Conceição, referindo o problema que tinha nos olhos e falando de preparar uma viagem da costureira a Roma. Na carta, dá conta de que a tensão arterial estava «um bocado» alta, obrigando-se a tomar medicação para a fazer baixar. «Estou nas mãos de Deus», acrescentava. E o comprimido que tomara não foi suficiente.
Sepultado em Roma, só vinte anos depois, a 23 de fevereiro de 2001, o sobrinho consegue finalmente concretizar um desejo que lhe ficara nessas duas décadas: trasladar para a Caranguejeira os restos mortais do seu tio. A urna embarca em Roma nesse dia e, no domingo, dia 25, uma cerimónia religiosa assinala a deposição dos restos mortais do antigo reitor na terra que o vira nascer.
Na ocasião, o vigário-geral da diocese de Leiria, padre Jorge Guarda, que presidiu à missa em representação do bispo, referiu o período da II Guerra Mundial: «Quando dirigia o Colégio Português, exerceu importante atividade de caráter social, sobretudo dando acolhimento a refugiados políticos (primeiro antifascistas e depois fascistas), durante o último conflito mundial.»
A ação do padre Carreira durante aqueles meses duros não era, no entanto, ainda conhecida com rigor nem em pormenor, nessa altura. Por isso, várias notícias de jornais exageraram muito naquilo que se passara durante o tempo da II Guerra, falando de «dezenas de judeus», de «centenas» ou mesmo de «milhares» de pessoas salvas pelo padre português.
A avaliar pelo relatório do padre Carreira, pelos testemunhos dos refugiados no Colégio e pelo depoimento e carta dirigida a Maria da Conceição Primitivo pode inferir-se que ele terá ajudado mais de uma centena, talvez perto de duas centenas de pessoas. Em todo o caso, para declarar Joaquim Carreira “Justo Entre as Nações” o Yad Vashem precisou apenas, como é norma da instituição, do testemunho de uma pessoa…
 Esta transcrição omite as notas de rodapé.
 Fonte: Pastoral da Cultura:

terça-feira, 5 de julho de 2016

SANTO ANTÓNIO DE LISBOA, DE PÁDUA E DO MUNDO!

5 de julho de 2016

"Vida de Santo António" é «peregrinação» que portugueses deviam recuperar, escreve Henrique Raposo

 
Se percorrermos as nações cristãs, e ainda aqueles povos onde a luz do Evangelho apenas bruxuleia, não encontraremos nome de santo mais popularizado nem mais invocado do que o do taumaturgo português. Mas se perguntarmos aos devotos quem é Santo António, não no-lo saberão dizer. Leia o prefácio, de Henrique Raposo.
Prefácio
Henrique Raposo
In "Vida de Santo António de Lisboa"

Quando escreveu a biografia de São Francisco de Assis, C. K. Chesterton deixou um aviso: abordar um homem pio dos séculos XII ou XIII é uma jornada intelectual que não pode ceder a duas pulsões tentadoras e incapacitantes, a pulsão laica e a pulsão devota. A primeira elogia o homem sem falar do santo, procura uma visão higienizada que retira Cristo da equação, elogia os feitos do biografado mas evita estabelecer uma ligação entre esses feitos notáveis e a fé. Mas falar da sensibilidade social de Santo António (por exemplo, o ataque à usura) sem invocar Deus é como tentar explicar o aventureirismo dos Descobrimentos sem invocar o sonho da Índia ou do Preste João. É impossível. Tal como é impossível falar do génio literário de Dante ou Flannery O’Connor sem abordarmos o assombro religioso que marcava a visão do mundo destes escritores. Intelectuais modernos como Renan e Arnold tentaram esta missão impossível, isto é, abordaram santos medievais como Assis e António através de uma lente que despreza o ascetismo, os jejuns, os estigmas, os sacrifícios, o desejo de martírio. É o mesmo que tentar explicar "Romeu e Julieta" sem o amor, esse pormenor que surge como uma irracionalidade  debaixo da lente destes alienistas científicos que arquitetaram o desencantamento do mundo ao longo dos séculos XIX e XX. Ainda hoje, estes “modernos" não compreendem que a religião não é um sistema filosófico de ideias, é uma paixão. São Francisco de Assis e Santo António não amavam a Humanidade, que é uma ideia, amavam homens concretos. Nem sequer amavam o Cristianismo, que também se pode transformar num "ismo" farisaico. Amavam Cristo. Os cínicos contra-argumentarão que eles amavam uma pessoa imaginária. Mesmo que isso fosse verdade, seria necessário sublinhar que se tratava de uma pessoa imaginária, não de uma ideia imaginária.
A segunda pulsão, a devota, comete o erro inverso: retira o biografado do seu contexto humano e social, transformando-o num anjo que por acaso desceu à Terra; há um excesso de entusiasmo teológico que transforma a biografia numa hagiografia ininteligível para o não-crente. Aliás, até o crente tem dificuldades em captar o nevoeiro onírico da hagiografia. Ora, parece-me que Aloísio Tomás Gonçalves cedeu a esta segunda pulsão. Com apenas mais oito anos do que "São Francisco de Assis" (1923) de Chesterton, este "A Vida de Santo António de Lisboa"(1931) é uma hagiografia ultra-adjetivada que segue uma tese que me parece perigosa: a ideia de que Santo António era quase um anjo que por acaso se viu preso num corpo humano. É perigosa porque esquece que um santo é um pecador que não desiste, não é um anjo extra-humano que executa obras-primas morais sem qualquer esforço.
Seja como for, "A Vida de Santo António de Lisboa" tem uma vantagem sobre abordagens mais higiénicas. Não isola as ideias de Santo António em grandes chavões abstratos e regurgitáveis para o público moderno; o autor tem o mérito de seguir o rasto empoeirado das viagens de Santo António por Portugal, Itália e França. Isto não é um pormenor. Para não cair no destino desumanizante dos restantes "ismos", o cristianismo tem de evitar o abstrato, tem de se centrar no concreto, no biográfico, na peregrinação, na viagem. O cristianismo só faz sentido numa literatura de viagens. Se repararmos bem, a viagem está no centro da nossa fé: o Antigo Testamento é uma epopeia de êxodos e regressos, o Novo Testamento é composto pelas viagens de Cristo na Palestina e pelas missões de Paulo no Mediterrâneo; depois temos os caminhos de São Tiago, as viagens de São Francisco de Assis e do seu mais notável seguidor, Santo António de Lisboa. Também não é por acaso que o grande poema cristão, "Divina Comédia", é uma viagem. Imaginária, sem dúvida, mas uma viagem e não uma mera divagação.
Sou católico, mas confesso a minha descrença em relação a aparições e milagres. Há nesses fenómenos uma hagiografia hiperbólica que não encaixa na minha teologia. Milagres só consigo ver no rosto de uma entidade. Taumaturgos, confesso, só reconheço um. Talvez seja demasiado protestante, o que não é um problema. O catolicismo às vezes precisa de uma dose de secura protestante para não cair no xarope melado. Contudo, isto não impede o meu fascínio pela figura do santo católico, que me faz lembrar a figura do profeta do Antigo Testamento. Nos dois mil anos d. C., os santos católicos têm desempenhado o papel que os profetas hebreus desempenharam nos dois mil anos a. C. – têm sido os almocreves da fé, os símbolos moventes da aliança entre Deus e o seu povo, as artérias teológicas que tentam estancar a gangrena da descrença, da violência, da "hubris". E violento e arrogante era o tempo de Santo António. Se o padre António Vieira viveu a decadência portuguesa e católica perante o avanço protestante, Santo António viveu a força portuguesa e católica na época da reconquista cristã.
Santo António pregando aos peixes
Antes de ser rebatizado como António, este grande sábio do século XIII dava pelo nome de Fernando Bulhão, filho de uma família lisboeta, aristocrática e guerreira, típica da época das Cruzadas. Para espanto dos seus, o menino Fernando recusou o estatuto social e a glória guerreira, preferindo a clausura religiosa que se consubstanciou em Coimbra, nomeadamente naquela que é atualmente a "minha" igreja de Coimbra – a Igreja de Santo António dos Olivais, local histórico da ordem mendicante criada naquele tempo por São Francisco de Assis. Por uma série de razões que não cabem neste espaço, Fernando deixou a ortodoxia religiosa e entrou na heterodoxia quase revolucionária dos franciscanos. O seu nome passou a ser António, o primeiro sábio de origem seráfica e caixeiro viajante que enfrentou os pecados da Europa daquele tempo. Por exemplo, debateu-se com a grande heresia do catarismo, um culto niilista, maniqueísta e oriental que pervertia o humanismo cristão. António lutou com palavras contra os hereges em França (albigenses). Sem sucesso, diga-se. Os niilistas albigenses não se converteram, forçando assim a famosa cruzada albigense que está na génese, por exemplo, da Inquisição.
Se em França lutou contra a heresia, em Itália Santo António enfrentou a grande divisão política da Idade Média, o choque entre guelfos e gibelinos. Foi neste contexto que surgiu o meu episódio favorito das aventuras de Santo António: a forma como enfrentou a tirania personificada por Ezzelino III.
O conflito entre guelfos e gibelinos era a tradução italiana do conflito entre o Papado italiano e o Sacro Império Alemão. Os guelfos apoiavam o papado, os gibelinos o imperador. Ezzelino era o lacaio italiano de Frederico II, imperador da família Hohenstaufen, terrível inimiga dos Papas. Implacável na guerra, Ezzelino conquistou Verona, Vicenza, Bréscia e Pádua para a causa gibelina. Era implacável antes, durante e depois das batalhas. Lendária se tornou a forma como tratava os prisioneiros: arrancava-lhes olhos, matava-os à fome, queimava-os vivos. Num só dia, queimou onze mil cidadãos de Pádua, a cidade de eleição de Santo António. Quando conquistou Verona, Ezzelino fez prisioneiro um amigo de Santo António, o conde Ricardo de São Bonifácio. Consciente dos perigos que corria, António pediu um face-a-face com o tirano e pediu a libertação do amigo. Falhou no intento, mas cumpriu um desígnio cristão: estar disponível para morrer não pela Humanidade, abstração vaga, mas por um amigo concreto. Este é o meu episódio favorito porque revela um homem de coragem. António não era um mero sábio ou teórico, era um homem com o sentido trágico da ação (na teoria não há tragédia, só na ação). Tendo em conta a sua profunda sapiência, podia ter procurado refúgio numa biblioteca para nos deixar a sua "Suma Teológica"mas, em vez disso, calcorreou o mundo, enfrentou hereges que o apedrejavam, debateu-se com tiranos e usurários que o ameaçavam, palestrou ao povo em gigantescos sermões que paralisavam cidades até altas horas da madrugada.
Sim, até de madrugada, porque António ficava a ouvir as confissões de centenas e centenas de pessoas tocadas pelas suas palavras que fundiam o frio da erudição com o ardor da piedade. Ao pé desta coragem tão terrena, os alegados milagres são uma irrelevância.
Santo António representa uma viagem exterior (Lisboa, Coimbra, França, Itália) e uma peregrinação interior que nós, portugueses, devíamos recuperar. Espero que a reedição deste livro hagiográfico mas honesto seja apenas o início dessa redescoberta.
Fonte: Pastoral da Cultura